AS MÁQUINAS


Sandra Eliane Radin




Leilah e Andy se casaram jovens. Ela com dezoito anos e ele com dezenove. Leilah optou por não fazer faculdade, não queria trabalhar fora, desejava dedicar todo o seu tempo para sua casa, marido e filhos.
Tiveram um casamento lindo as margens do Guaíba numa magnífica casa de festas, com direito a pôr do sol e violino tocando na hora que a noiva se dirigiu ao altar, cercada por amigos e familiares do casal.
Assim que voltaram da lua de mel iniciaram a vida a dois e ela, filha única de uma família de classe média alta, assumiu a responsabilidade por uma casa. Aprendeu a cozinhar, lavar, passar dentre outras tarefas domésticas. Sentia orgulho por ter aprendido tanto em pouco tempo. Andy parecia não perceber nada.
Leila engravidou oito meses depois de ter casado. Teve um menino lindo, Marquinho. Hoje com 5 anos. Uma criança dócil, calma. Brincava sozinho, não fazia barulho, não incomodava e só chorava quando estava com dor ou se machucava, o que acontecia raras vezes. Andy nunca fez uma mamadeira ou trocou as fraldas de seu filho.
Eis que um belo dia, a pílula falhou e ela engravidou mais uma vez. Estava com vinte e seis anos agora. Os deuses não contentes com isto lhe presentearam com trigêmeos. Duas meninas e um menino. Nasceram de sete meses, requeriam minha atenção e cuidados constante. Enquanto um mamava os outros dois choravam. Eram pequenos, magros e com uma saúde bastante frágil.
Á noite enquanto eles dormiam ela cuidava dos afazeres domésticos e adiantava o almoço para o outro dia. Deixava a mesa posta para o café da manhã, a mochila, o uniforme e a merendeira do seu filho maior e a marmita do marido, prontos e visíveis para o dia seguinte.
Assim que deitava sempre tinha um dos bebes que chorava e acordava os outros. Começava a rodada de mamadas e troca de fraldas. Seu marido alheio a tudo, dormia.
As brigas entre os dois se tornaram frequentes Marquinho ouvia os gritos e tapava os ouvidos com as mãozinhas. Logo começou a apresentar problemas na escola. Brigava com os coleguinhas, não fazia as atividades e não interagia com nenhum colega.
Leilah já não tinha tempo para ele. quando pedia ajuda para fazer suas tarefas escolares mandava que fizesse sozinho.
Os dias foram passando e ela não era em nada a jovem alegre, radiante e cheia de vida que um dia fez planos para casa e constituir família. Com 26 anos se sentia envelhecida. Não sentia prazer em nada a não ser em deitar e dormir ao menos umas três ou quatro horas por noite. Os dias foram passando, seus cabelos caindo, seus lábios sangravam e formavam feridas de tanto ela morder.
Começou a ter desconfianças em relação a fidelidade do marido. Olhava o relógio de forma insistente quando se aproximava o horário dele chegar. Chegava a imaginar uma cena de traição com direito a beijo e tudo. Mal se falavam e discutiam sempre.
Ele chegava alegando cansaço. Jantava, assistia o jornal, football e depois tomava banho e ia deitar-se. E ela funcionava até tarde da noite, seu banho, via de regra, era em torno de duas horas da manhã quando todas as crianças estavam alimentadas, trocadas e dormindo.
Percebendo que a relação deles não poderia continuar do jeito que estava, Leilah resolveu ter uma conversa com ele para tentarem não só se entenderem mas, para fazerem algumas combinações referentes aos cuidados das crianças e da casa.
A noite quando Andy chegou Leilah disse - Andy assim que tomares teu banho eu quero conversar contigo
Porque não falas agora? Algum problema?
O problema somos nós, precisamos conversar , pensa sobre isto enquanto tomas o teu banho- disse Leilah
hummm - resmungou Andy
Leilah deu um suspiro e repassou tudo o que iria falar para o marido.
Fala mulher, o que é?
Andy, peço para te desarmares, não quero brigar, ao contrário. Essa conversa é para nos entendermos.
O quê? rosnou Andy
Faz muito tempo que nos esquecemos de nós. Tu, preocupado em seres o provedor da casa e eu a “rainha do lar”. Nos perdemos pelo caminho.
Estou muito cansado para uma DR
Uma DR? Achas isso mesmo? Não estás preocupado conosco? Fizemos tantos planos para a vida a dois. Estamos cada vez mais distantes.
É mas tu sempre reclamando de tudo. Dos afazeres domésticos, das crianças..
Eu não disse e nenhum momento que tu és o culpado, nós dois deixamos nosso casamento chegar a este ponto.
Desculpa Leilah, tens razão. Tenho andado muito envolvido com as questões do escritório, chego cansado, tenho te deixado de lado. Queres tentar? Como posso melhorar?
A verdade Andy é que me sinto como se fosse tua empregada. Tu não valorizas nada do que faço. Não és capaz de dar um elogio sequer para o jantar que preparo com esmero e carinho para ti. Tu senta na mesa com o jornal ou o celular na mão. Quase não me dirige a palavra nem o olhar.
Andy só escutava e percebeu que precisava dar espaço para sua mulher se expressar. Ela continuou:
-Tenho dormido pouco. Nunca mais fui ao salão fazer cabelo, unha. Roupa nunca mais comprei. Sempre gostei de ler mas nem isso eu consigo. Preciso de um tempo para mim.
- Qual a tua sugestão? Que achas de um sábado para mim jogar football e outro para tu saireis, ires ao salão, a livraria comprar os livros que gostas, encontrar amigas - sugeriu Andy
Sim, seria ótimo mas, preciso mais que isso. Quero que tu também participes dos cuidados das crianças não só aos sábados mas durante a semana, a noite. Enquanto eu faço as mamadeiras e cuido dos trigêmeos tu poderias brincar com o Marquinho, ajudá-lo nas tarefas escolares. Pode ser? - perguntou Leilah
Posso tentar, não sei se vou conseguir - respondeu Andy - Não tenho paciência
Seria muito bom que interagisses com o Marquinho. Ele esta numa idade que precisa do pai. - insistiu Leilah
Claro, claro. Tens razão. - respondeu Andy
Que bom fico feliz. Tem mais uma coisa. Quero que dividas comigo os afazeres da casa. - falou Leilah receosa
Nossa, tu estás afiada mas aceito tuas condições . Tudo que eu desejo é te ver bem e feliz. - falou Andy com sinceridade.
Que bom Andy que nos entendemos. Não vamos deixar as mágoas se acumularem, vamos conversar sempre, isso nos aproximará cada vez mais.
Leilah se sentiu melhor depois da conversa e chegou a pensar em marcar hora no salão ao sábado, enquanto ele ficava com as crianças, iria cortar o cabelo, fazer uma hidratação, pedicure, manicure e aproveitaria para fazer depilação também. A noite prepararia um jantar especial para os dois, colocaria aquela saia de couro preto com a blusa vermelha de mangas compridas e um scarpin. Jantariam depois que os filhos dormissem, tomando um bom bordeaux.
Naquela noite até as crianças dormiram cedo. Parece que sabiam que seus pais precisavam de espaço para aparar arestas e fazerem novas combinações em um casamento que começava apresentar desgastes e dissabores até então mascarados pelo cansaço, dor de cabeça e outras tantas desculpas.
Os dois ficaram um longo tempo conversando e trocando carícias. Depois que Leilah dormiu Andy ficou pensando um longo tempo sobre tudo que havia conversado e do quanto Leilah não deixava de ter razão.
Leilah acordou disposta, feliz e esperançosa de que tudo seria diferente a partir de agora.
No final da tarde Andy chegou do trabalho com um mimo para Leilah, lhe deu um beijo, beijou as crianças e disse que iria trocar de roupa para fazer as suas tarefas, conforme haviam combinado.
- Andy tu querer jantar antes?
Pode ser - respondeu Andy
Jantaram, Leilah tirou a mesa, sentou pegou um livro enquanto Andy se dirigiu para a área de serviço.
Andy foi até a lavanderia olhou para as pilhas de roupas nos cestos, coçou a cabeça, colocou sabão em pó num balde, no outro sabão neutro, colocou as roupas dos filhos no segundo balde e no primeiro as roupas de mesa. Tapou o tanque, abriu a torneira deixou encher, colocou sabão em pó e na sequencia as roupas de cama e banho. Deu um suspiro fundo e foi para a cozinha.
Arrumou a louça na pia, abriu a torneira, molhou as mãos, pegou a esponja colocou detergente, abriu a torneira de novo, ficou olhando a água escorrer por cerca de quatro a cinco minutos, fechou a torneira, secou as mãos, pegou as chaves do carro fez menção de sair. Guardou a chave, voltou para a cozinha, abriu mais uma vez a torneira e lavou a louça concentrado e pensativo.
Depois que todos dormiram, já na madrugada Andy levantou-se e, acreditando ter uma brilhante ideia para resolver todos os problemas, ligou o computador, deu alguns cliques e comprou duas máquinas: uma de lavar louças e outra de lavar roupas.

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Sandra Eliane Radin

E-mail: radinser@hotmail.com

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